Conto | Jeepers Creepers

terça-feira, outubro 30, 2018

fonte: Unsplash
Você pode ler ao som da música
Era uma daquelas noites onde o dia tinha sido muito quente e quando o sol se punha as casas permaneciam abafadas. Lá fora contudo, estava um pouco mais fresco por isso decidi caminhar até a padaria 24 horas que ficava perto do meu bairro. Já era quase 22 horas mas as crianças ainda brincavam nas ruas com seus pais os supervisionando das calçadas onde estavam sentados. Normalmente eu não sairia a noite sozinha mas o calor dentro de casa fazia com que as ruas ficassem movimentadas até tarde me permitindo um pouco mais de segurança.

Como já tinha imaginado a padaria estava cheia de gente, em sua maioria adolescentes falando muito alto — percebi que me tornei adulta quando passei a achar os adolescentes barulhentos demais. Pedi um chá gelado e o bebi com certa pressa, apesar de não querer ficar no calor que estava dentro de casa não queria voltar para ela quando as pessoas já tivessem ido dormir e as ruas estivessem vazias. Na volta fui vendo as famílias se recolhendo para suas casas, amanhã seria dia de trabalho e escola, todos precisavam dormir. Comecei a caminhar mais rápido ansiando por chegar logo, estranhamente me sentindo nervosa sem saber o porque. Tentei respirar fundo e me acalmar mas o nervosismo só piorou. Tive a impressão de ouvir alguém atrás de mim mas não tive coragem de olhar para trás, essa impressão se concretizou quando esse alguém começou a assobiar uma canção que fez meu coração acelerar e os pelos da minha nuca se arrepiarem. Caminhei mais rápido e entrei na primeira rua que vi. Era um beco sem saída.

"Mas que droga! Desde quando tem becos sem saída nesse bairro?" Pensei desesperada. Não tinha para onde fugir se continuasse indo reto e se desse meia volta poderia dar de cara com meu perseguidor. "Você está sendo paranoica. Talvez seja apenas uma pessoa caminhando para algum lugar que nem você." Pensou a parte sensata do meu cérebro. Por via das dúvidas resolvi me esconder nas sombras de uma caçamba de lixo que tinha ali no beco. O lugar todo era desagradável, fedia, eu conseguia ouvir bêbados e mendigos brigando ao longe e a brisa refrescante da noite não parecia conseguir alcançar aquele beco.

Esperei, esperei e esperei pelo que pareceram horas mas segundo meu celular foram apenas alguns minutos. Pensei em ligar para algum amigo para ir me buscar mas o celular estava sem sinal, já estava quase tomando coragem de sair de meu esconderijo e ir correndo para casa quando ouvi o barulho de asas batendo, asas grandes carregando um corpo pesado. Antes que meu cérebro pudesse me dar uma resposta lógica para aquele som pude ouvir alguma coisa pousando no fim do beco, onde a luz dos postes não alcançava. Não conseguia enxergar o que era mas reconheci o assobio que eu tinha ouvido pouco tempo antes.

Podia sentir o suor escorrendo pelas minhas costas, minhas mãos tremiam de nervoso e antes que perdesse a coragem sai correndo em direção a rua, na mesma hora senti uma forte dor na minha perna, cai no chão sem conseguir me movimentar, quando olhei tinha uma faca cravada na minha panturrilha. O dono do assobio começou a andar, pude ouvir seus passos lentos em minha direção, parecia tranquilo enquanto eu sentia o desespero crescendo dentro de mim, tentei me levantar, mas a dor era maior que qualquer coisa que estivesse sentindo naquele momento. Meu corpo parecia incapaz de fazer qualquer coisa que não fosse esperar pelo inevitável. Fechei os olhos. Não queria ver o que iria acontecer.

O assobio parou e apesar de minhas tentativas, abri os olhos e soltei um grito aterrorizada quando senti meus cabelos serem puxados para cima e algo gelado tocar a pele do meu pescoço. Era um facão pressionando cada vez mais minha garganta. Antes que minha cabeça fosse arrancada pude ver o rosto de meu perseguidor, tinha um sorriso cruel feito de dentes pontudos e a pele era cinzenta e enrugada. Não era humano.

♦♦♦
Projeto Escrita Criativa
Se quiser ouvir o tal assobio citado no texto é só ir para os 3:26 minutos desse vídeo aqui :3

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13 comentários

  1. Nossa, que conto maravilhoso. Ao lê você vai sentido o desespero da personagem e a sua agonia. Serio parabéns tu tens uma escrita maravilhosa.

    www.luartico.com

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  2. caraca, que texto foi esse? amei amei amei!
    incrível a sua capacidade de imaginação e detalhes, amo ler textos assim. sério, amei muito, parabéns!

    Sou Nerd

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  3. Ah que demais ler um conto aterrorizante assim, eu amo demais. Me lembrou muito o filme: Olhos Famintos... já viu né?
    Tá incrível.

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    1. Sim! Me inspirei nesse filme para escrever o conto hehehe
      Obrigada ❤

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  4. Oii! :)
    Mulher do céu, que história hein! Juro que comecei a ler achando que a mulher era meio paranóica mesmo, que não havia nada de errado, mas achei incrível o final (apesar de um tanto macabro haha)! Gosto muito de histórias assim!

    Beijos

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    1. Hahahaha as reviravoltas. Fico feliz que você tenha se surpreendido e gostado do conto ❤

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  5. Aaaaaah menina, você quer me deixar sem ar? Eu já tenho tanto pavor de andar na rua que a decisão de ir ali na padaria tão tarde sozinha já me deixou apreensiva... Imagina depois de um enredo e desfecho desse!
    E conto de suspense bom é conto que deixa o suspense no ar mesmo depois que acabou!

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    1. Pois é, eu também morro de medo de sair a noite sozinha :/
      Hahaha também acho isso sobre suspenses que deixam o final em aberto. É legal ficar pensando na história depois que ela já terminou kkkk

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  6. Oiee, como vai? Menina, que conto macabro!
    Olha, eu tenho medo de sair na rua a noite e, agora estou com mais medo ainda porque, tenho uma imaginação muito fértil...hehe..esse conto vai ficar por dias dentro na minha cabeça.

    Beijos e Abraços Vivi
    Resenhas da Viviane

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  7. Isso pode virar facilmente o prólogo de um livro sobre serial killers haha.
    Eu adoro histórias assim, inclusive o pessoal do meu círculo social tira o sarro dizendo que eu levo tudo para o lado macabro... fazer o que, né?
    Você imaginou uma continuação para a história? :) eu adoraria ler!

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  8. uaaaau que conto incrível! Não consegui respirar quase durante as palavras que lia hauhau uma escrita muito boa! Realmente me fez sentir como a pessoa que narra, sentir tudo o que sentiu; ótimas palavras, parabéns!!

    Bjss

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